
“…there´s a lady who´s sure / all that glitters is gold / and she´s buying a stairway to heaven…”
Stairway to heaven é uma canção icônica da banda de rock Led Zeppelin, lançada no início da década de 1970, composta pelo guitarrista Jimmy Page e pelo vocalista Robert Plant, considerada uma das maiores canções de rock de todos os tempos – e quem sou eu para contestar? Basicamente, é uma balada que fala sobre escolhas e misticismo. Começa criticando o materialismo (uma mulher que quer “comprar” seu acesso ao paraíso) e, ao longo de sua letra, evolui para uma reflexão sobre espiritualidade e sobre a necessidade de se conectar com a própria intuição.
Essa foi a primeira imagem que me veio ao me deparar com a escada belíssima que abre este texto, criada pelo amigo Nildo José para a Casa Cor São Paulo, este ano. Uma espiral linda, fluida, pintada em uma cor maravilhosa, que se destacava em seu espaço neste evento. Eu me peguei parado por alguns instantes, fixando aquela belíssima linha sinuosa frente à uma impressionante biblioteca, quase uma parábola sobre as dificuldades – e prazeres – de se obter conhecimento.
Então resolvi listar “minhas” escadas preferidas no mundo.

E começo com a mestra Lina Bo Bardi e sua escada helicoidal toda em madeira, uma verdadeira escultura, uma obra absurdamente bela, que se impõe no Museu de Arte Moderna da Bahia / Solar do Unhão, um conjunto arquitetônico do século XVII localizado às margens da Bahia de Todos os Santos, da qual Lina foi criadora e primeira diretora.
Eu me sinto compelido, toda vez que vou à Salvador, a ir a este espaço, não apenas pelo conjunto arquitetônico, mas – e principalmente – por causa desta escada.
Fico imaginando a criação desta, Lina uma afeita ao concreto (com a qual se destacou através do MASP) lidando com uma matéria prima cheia de limitações, e tirando desta seu potencial máximo. Coisa de gênio mesmo. Mas eu sou suspeito, sou um confesso adorador da obra desta criadora.

Não poderia deixar de citar Oscar Niemeyer e sua icônica escada do Palacio Itamaraty, em Brasília. Projetada com maestria em conjunto com o engenheiro Joaquim Cardoso, esta escada impressiona pela elegância – e ausência de pontos de apoio visíveis, um marco do modernismo brasileiro, refletindo a genialidade de Niemeyer.

Uma versão desta escada aparece décadas depois no Memorial da América Latina, também de autoria de Niemeyer, com igual elegância – aqui, potencializada com o uso do espelho na parede lateral, que duplica visualmente essa maravilha.
Impossível não se impressionar com a aparente “leveza” desta escada, em contraponto com a matéria prima utilizada.

Em um cenário quase gótico, lembrei-me desta escada que vi na Cite de L´Architecture du Patrimoine em Paris, França. Um amontoado de curvas parecendo tentáculos, um acúmulo de curvas cor de chumbo, que parecem ligar profundezas às alturas – desconheço quem criou estas, mas louvo esta criação.

Pertinho, tem esta escada sublime, que está no The Queen´s House in Greenwich, Londres. Considerado um dos mais fascinantes edifícios deste país, famoso não apenas por seus ocupantes reais como também pelo vasto acervo de arte (e, dizem, por fantasmas também…), ostenta um guarda-corpo que confere beleza indiscutível à esta espiral. Uma verdadeira stairway to heaven…

Mudando de continente, esta escada está adornando o Palacio de Manial, às margens de um pequeno braço do Rio Nilo, no Egito. O Palácio e Museu de Manial é uma antiga edificação de arquitetura otomana ao sul do Cairo.
Administrado pelo Conselho de Antiguidades, esta edificação foi preservada como um museu histórico, que reflete o ambiente e estilo de vida do príncipe herdeiro egípcio Mohamed Ali do final do século XIX e início do século XX, sendo que ele que selecionou pessoalmente a localização do palácio, acompanhando sua construção, e deixando instruções precisas para que este fosse convertido em museu após sua morte. E eu, um entusiasta da cor e do ornamentalismo, caí de amores por esta escada, delicada, rica, uma pequena joia.

Sou fã do arquiteto catalão Antoni Gaudi, e quando estive na Sagrada Família, subi as escadas de uma das torres. Uma sensação estranha, em dado momento não sabia se estava no terceiro, quarto ou décimo andar, pois estas escadas se desenvolvem através de um eixo pequeno, quase aflitivo.
Porém meu conhecimento sobre a arquitetura ibérica não abrangia a obra do arquiteto catalão Joan Martorell, que, por ordem do segundo Marquês de Comillas, construiu o Palácio de Sobrellano na vila de Comillas, na Cantábria, Espanha.
E uma das escadas deste palácio me encantou por seu ornamentalismo, pelo uso das cores quentes ressaltando as curvas do guarda-corpo, pelos desenhos das bases que sustentam este, pela moldura que delimita a base destas curvas. Graficamente impecável.

Da delicadeza da escada anterior para a monumentalidade das escadas do Eli and Edythe Broad Art Museum, em East Lansing, USA, projeto da starchitect Zaha Hadid, localizado no campus doa Michigan State University. Curvas portentosas em aço polido e concreto, uma verdadeira escultura contemporânea que se impõe junto ao impressionante acervo deste museu.
Rezam as regras que a altura de um degrau deve ficar entre 16 e 18 cm. Regras estas desobedecidas pelos degraus da Grande Muralha da China, que vão de poucos centímetros a mais de 35/40 centímetros, variando do trecho (o que me causou um desconforto estranhíssimo quando lá estive, mas valeu a pena cada degrau…).
Mas temos que assumir que o degrau da escada não foi criado para repousar, e sim apenas para sustentar o pé o tempo necessário para que o homem coloque o outro pé um pouco mais alto.
Mas eu adoro o poeta Mario Quintana, portanto não poderia deixar de citá-lo: “…Escadas de caracol / Sempre / São misteriosas: conturbam… / Quando as desce a gente / Se desparafusa / Quando a gente as sobe / Se parafusa
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TAG: Wair de Paula, escadas, escada helicoidal

