APEGO, DESAPEGO E PERMANÊNCIA

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Ao longo da vida, por curiosidade ou real interesse, desejo ou necessidade, garimpei móveis e objetos usados em antiquários, leilões, feirões e feirinhas, bazares, “família muda-se”, e até em vendas nas calçadas dos Jardins, em São Paulo. Nas caçambas nunca peguei qualquer coisa. Tenho preguiça do trabalho que dá, e receio do preço e do prazo que um bom restauro requer. E por isso nas ruas, até hoje, apenas descartei.

Também herdei bons móveis antigos da família – de baús e abajures a cômodas e camas, de cadeiras e poltronas a sofás e guarda-roupas -, e ganhei outras peças antigas ou até novas de amigos. Com vários deles ainda fiz inesperadas e/ou muito boas trocas – basicamente, entre móveis x móveis. Almejados protótipos também chegaram (e muito bem-vindos) de seus autores, os designers-amigos mais próximos, entre os que criam preciosidades inéditas e às vezes únicas, e às quais dou muito valor.

Ganhei também mobiliário importado e estalando de novo porque sim, e por outro lado aceitei ou até mesmo sugeri receber alguns pagamentos através da permuta de serviços por belos tapetes exclusivos e assinados, e também fiz trocas de trabalho por tecidos para cortinas e estofados, nacionais e importados. Obras de arte surgiram até como presentes dos artistas, mas muitas também foram sugestões de permutas que partiram muitas vezes deles próprios ou das galerias de arte. E por isso a coleção de parede acaba sempre aumentando – imagine que estou falando de um percurso que começou nos anos 1980 -, o que não quer dizer que todas estas obras necessariamente me acompanharão para sempre. Afinal, elas podem tomar novos rumos: dos presentes e doações às trocas e vendas.

É claro que também comprei no comércio tradicional e nos shopping centers especializados, que curto muito – trabalhei para um, no Rio de Janeiro, por exatas duas décadas desde 1985 -, dando preferência a obras de edições limitadas e de origem, tanto em lojas quanto em galerias do setor. Desta forma, sempre com projetos criados por arquitetos, o resultado no décor em casa foi o tal do mix&match, a mistura que combina, sobre o qual tanto escrevi como até criei uma mostra de design a respeito, a Modernos Eternos, que possui este tema como pilar principal.

Também doei de um tudo para quem gostava e/ou precisava mais. Assim, alguns de meus móveis foram embora de casa, em rodízio sadio e até posteriormente lucrativo, pois chegou a um ponto em que achei que já tinha volume suficiente para começar a vender. E vendi bastante, o que foi bom, pois a casa já estava intransitável e foi aí mesmo que ela virou uma loja, depósito cheio de outros garimpeiros amigos, matérias na mídia e etc.

Apartamento do colunista e galerista Sergio Zobaran na Al. Gabriel, SP. Projeto de Juliana Vasconcellos com fotos de Andre Klotz.

Com tudo isso, numa trajetória nem tão simples assim, a mania do assunto permanece. Ao pesquisar, estudar, ler, aprender, conhecer, visitar da loja ao museu, ou mesmo simplesmente viver, percebe-se que ficar apegado a algo de casa traduz em permanência o que é paixão, e esta não se deve refrear, na medida do possível. E se as mudanças de casa, de gosto, de estilo, e até de um modo de vida são naturais e muitas vezes necessárias, que sejam aceitas de bom grado, e bem guardadas na memória, com olhar generoso, pelo menos enquanto a gente quiser ou conseguir.

Sergio Zobaran

Projeto: Juliana Vasconcellos.

Fotografo: Andre Klotz

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