Quarto de Serviço

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Se você mora em prédio moderno, provavelmente não tem um “Quarto de Serviço”, já que as diaristas substituíram as domésticas que dormiam na casa dos patrões.  Se seu prédio é da segunda metade do século XX, com certeza ainda tem os (agora politicamente incorretos), “quartos de empregada”.

Se você torceu o nariz, pense bem se alguma vez não se encantou com as mansardas parisienses, geralmente de ardósia, repleta de janelinhas. Os famosos e apreciados telhados de Paris. O nome mansarda tem origem em François Mansart (1598 -1666), mas popularizou-se através de seu sobrinho Jules Hardouin Mandart, que a utilizou no Palácio de Versailles. Mas pode traduzir-se por água-furtada, desvão, trapeira. Nada nobre…

Quarto de serviço ou chambre de bonne em francês, fachada de um predio na França com varias janelinhas no ultimo andar , cada uma representa um quarto de serviço

Nesses sótãos com janelas moravam as mulheres que faziam os trabalhos domésticos para a alta burguesia parisiense. Achou romântico? Pensou, que sorte, que vista maravilhosa? A história é bem diferente e triste, disfarçada sob fachadas elegantes e luxuosas.

A novidade veio com a reformulação arquitetônica de Haussmann no século XIX, chamado de artista da destruição pois botou abaixo o casario medieval e abriu boulevares e avenidas com construções padronizadas que não passavam de seis andares, acabando com a insalubridade, o esgoto a céu aberto e as epidemias.

Ilustração de um quarto de serviço, ou chambre de bonne em francês, antigamente como era na França

Porém, os chamados “chambres de bonnes” – quartos de empregadas, já que bonne deriva de bonne à tout faire (boa para todos o serviço) – eram cubículos que mediam entre 7m2 e 9 m2, insalubres, gelados no inverno e sufocantes no verão e apareceram em Paris por volta de 1830. Sem banheiro e água corrente, a higiene era feita precariamente, num quarto coletivo e a tuberculose atacava sem pena. E apesar de classes sociais diferentes habitarem o mesmo imóvel, para acessar seus quartos “as bonnes” tinham que usar uma escada de serviço.

Espaço grande e vazio de um apartamento repleto de janelinhas e vigas tesoura no teto.Cada janelinha dessa era um "chambre de bonne" no século XVII, e hoje, depois de uma grande obra na 22, Avenue de la Grande-Armée , 60 quartos de serviço foram transformados em 7 apartamentos de luxo. na foto um deles. Via Figaro
Cada janelinha dessa era um “chambre de bonne” no século XVII, e hoje,  depois de uma grande obra na 22, Avenue de la Grande-Armée , 60 quartos de serviço foram transformados em 7 apartamentos de luxo. Na foto um deles, Via Figaro.
Escada que da acesso ao banheiro com banheira e uma janela. Esquadrias azuis
Hoje, um “chambre de bonne” transformado em banheiro. Via Elle Decor France
Quarto de serviço reformado e atualizado, em um apartamento na França, uma cama e uma janela .
Localizado no 6º andar, este quarto de empregada com 9m2, estava em ruínas. Após 3 meses de trabalho, agora abriga uma kitchenette.

As estatísticas revelam que existem cerca de 100 mil unidades em Paris mas pela falta de infraestrutura muitas não podem ser legalmente alugadas como pequenos estúdios para estudantes ou estrangeiros, destino da maioria deles nos dias de hoje.

Segundo o arquiteto, professor e urbanista Carlos Murdoch, o padrão parisiense se espalhou pela Europa e extensivamente para o resto do mundo. A capital francesa se tornaria a principal referência urbanística até a década de 1930.

A manifestação da cultura francesa no Brasil sobre os gostos e tendências se instala a partir da Missão Francesa (1816), a qual influenciaria notavelmente a produção artística e arquitetônica brasileira durante o século XIX e o início do século XX. Esta é destacadamente percebida na abertura da Avenida Central (Pereira Passos – 1905) nos padrões dos boulevards parisienses e no estilo arquitetônico (então eclético) dos edifícios que compunham esta via. A expansão do Rio, inclusive para o litoral, promoveu a construção de diversos edifícios de apartamentos. Em um primeiro momento, na Praia do Flamengo, muito valorizada pela proximidade com o Palácio do Catete, então sede do governo. Esta expansão ganha força durante os anos 1920 e 1930. A arquitetura torna-se vertical pela adição dos elevadores, que chegam ao Brasil em 1918. Os edifícios desta época encontram-se em uma contradição ainda à procura de um estilo próprio. Inicialmente se parecerão com edifícios parisienses, seguindo a mesma lógica espacial com o chambre de bonne no pavimento superior, cujo exemplo principal é o Edifício Praia do Flamengo (1923).”

A maioria desses prédios foi erguido pela construtora Pederneiras e existem muitos exemplares espalhados pela cidade como o Piancó, o Seabra, o Itaoca, o Mamanguape e o Paraopeba.

Fachada de um aparatmento na prais do flamengo com estilo eclético.
Foto: Junior Grego
Foto: Junior Grego

O arquiteto Ronald Goulart e o designer de interiores Junior Grego moram num dos edifícios mais bonitos da Praia do Flamengo construído pelo arquiteto Joseph Gire, o mesmo do Copacabana Palace. De estilo eclético, o prédio possui dois “chambres de bonne” por apartamento que têm, cada um, 15m2.

Foto: Junior Grego
Foto: Junior Grego

O elevador de serviço só vai até o 9º andar. Para chegar até os quartos é preciso usar a escada. Eles também tinham regras, um lado era masculino e outro feminino. Nós fizemos adaptações e num deles instalamos um escritório e no outro uma pequena sala de ginástica“, conta Ronald.

Como curiosidade, vale assistir o filme “As mulheres do 6º andar”, que mostra imigrantes espanholas trabalhando em casas francesas. E não se iluda com o seriado “Emily in Paris”: além do quarto da personagem ser enorme, é no quinto pavimento. Andar errado.

 

Suzete Aché

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