O livro-arte “Mata Adentro – Natureza e Arte“, sobre o trabalho da pintora muralista francesa radicada no Rio de Janeiro, Dominique Jardy, será lançado em março, no Rio de Janeiro, em São Paulo e Porto Alegre. A obra foi escrita pela historiadora Lorelai Kury com fotos de Jaime Acioli, em uma edição de 216 páginas.
Além de texto crítico, a obra mostra o trabalho da artista em hotéis, fazendas e residências nos estados de Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará, Rio Grande do Sul e São Paulo. O primeiro lançamento será no Rio, no ateliê da artista, na Rua Alice, em Laranjeiras, no dia 10/03 (terça-feira), de 16h às 21h.

A renomada artista plástica e muralista, Dominique Jardy nasceu na França, perto de Le Puy-en-Velay, pequena localidade próxima de Saint-Étienne, no Departamento do Haute-Loire, e reside no Rio de Janeiro desde 1985. Seu talento excepcional foi reconhecido na prestigiada escola de pintura Van der Kelen, em Bruxelas, onde se formou e recebeu a Medalha de Ouro.
Ao longo de sua carreira, colaborou com renomados decoradores internacionais e atendeu a uma clientela distinta, incluindo personalidades como Rudolf Nureyev, Marie Hélène de Rothschild e a princesa Fyrial da Jordânia, além do estilista japonês Jun Ashida. De família ligada à produção de pintura de interiores, ela seguiu do seu modo essa linhagem.

Explorando diversos cenários pelo mundo, Dominique se encantou pela exuberância do Brasil, encontrando uma nova fonte de inspiração na natureza vibrante do país. Sua arte, uma fusão entre o estilo tradicional francês e influências culturais variadas, é marcada por composições vívidas e envolventes.

As pinturas de Dominique se encontram em numerosas residências particulares, restaurantes, boutiques e hotéis de prestígio ao redor do mundo, transmitindo a beleza e a magia da natureza tropical brasileira. Hotéis como o Copacabana Palace – A Belmond Hotel, o Marriott Rio de Janeiro, o Hotel das Cataratas – A Belmond Hotel, o Hotel Solar do Império de Petrópolis, e a embaixada do Brasil em Praga, entre outros.
“Para Dominique Jardy, as plantas e os animais são protagonistas. Eles se destacam das pinturas e das telas para interagir com os espaços interiores ou com os observadores, reivindicando seu lugar. Helicônias, bananeiras, filodendros, hibiscos, palmeiras e bromélias: as formas tropicais se impõem. Ao fundo, densas matas, as montanhas do Rio de Janeiro, céu e mar. Os animais nas pinturas da artista encarnam o movimento, a curiosidade e o aspecto lúdico da vida. Vãos fictícios se abrem para uma paisagem imaginária”, diz historiadora Lorelai Kury.
“Porém, longe de quererem substituir as matas, as pinturas são um convite para repovoar com natureza a paisagem antropizada. Um bicho-preguiça pendura-se nas bordas da composição; a cabeça de um quati avança por entre folhagens variegadas; uma bromélia sai da paisagem e adentra um grande salão. A sensação que toma conta dos apreciadores dos trabalhos de Dominique Jardy é essa: a vida transborda”, reflete Kury.
Primeira vez no Brasil em 1984

Quando veio ao Brasil pela primeira vez, em 1984, a artista viajou pelas cidades históricas de Minas Gerais e pelo sul da Bahia, pintando cenas a guache. No fim desse mesmo ano, decidiu estabelecer-se no país. Deixou as florestas temperadas da França e a Paris cosmopolita para morar no Rio de Janeiro. Ao começar a trabalhar no Brasil com pintura de interiores, ela manteve, por um certo tempo, os temas recorrentes na Europa, como mármores, arabescos, padrões florais e referências à tradição da pintura mural e dos afrescos italianos.
Em meados dos anos 1980 e anos 1990, em plena vigência de uma estética que se designava pós-moderna, o circuito sofisticado carioca queria temas desvinculados da natureza tropical, longe de uma brasilidade de certo modo caricata, com seus abacaxis e araras vistosos. Seus trabalhos dessa época buscavam tonalidades suaves, em tons de sépia e sálvia. Sem dúvida, a inspiração europeia e italiana continuaria presente em sua obra, o que pode ser visto em alguns elementos temáticos, mas também nas técnicas visuais.
A partir do final dos anos 1980 Jardy começou a introduzir temas tropicais em suas pinturas de interior, com pigmentos naturais e observação da vegetação brasileira. A artista sempre preferiu tintas à base d’água, seguindo a tradição italiana de pintura mural, mesmo quando trabalha sobre telas. Sua primeira grande composição tropical só ocorreria anos depois, em 1990, ao realizar os murais da Fazenda São Lourenço, em Três Rios, no estado do Rio de Janeiro. A partir de então, definitivamente, bichos, plantas e paisagens passariam a fazer parte de suas opções pictóricas.

Dominique Jardy dedicou-se a observar e a pintar a flora e a fauna a seu redor, habituando-se às fisionomias da natureza subtropical. Seu grande manancial foi o Parque Nacional da Tijuca – floresta urbana encravada na cidade do Rio de Janeiro , que percorreu incontáveis vezes fazendo trilhas nos fins de semana.
Referências
Artistas estrangeiros e brasileiros dos séculos anteriores haviam estabelecido tradições temáticas e estilísticas em diálogo principalmente com a pintura europeia. Dominique Jardy embrenhou-se no estudo desses referenciais, inicialmente da obra do francês Jean-Baptiste Debret (1768–1848) e do bávaro Johann Moritz Rugendas (1802–1858), mas também dos pioneiros Albert Eckhout e Frans Post, de Thomas Ender, Marianne North e Martin Johnson Heade. Ao lado de outros viajantes, esses artistas mantêm até hoje seu status de intérpretes privilegiados da natureza brasileira, motivando reapropriações, críticas e admiração.
Ao tomar contato com a obra dos artistas viajantes que a precederam, Jardy incorporou algumas tradições temáticas estabelecidas no século XIX, como a pintura de paisagem e de vistas panorâmicas do Rio de Janeiro. Além disso, adaptou seus interiores à arquitetura brasileira, colonial e moderna, explorando a relação entre os espaços reservados e as paisagens, por meio de jogos de escalas, de perspectivas e de camadas pictóricas.
As florestas

As florestas de Dominique Jardy incorporam essa sensação do emaranhado vegetal. Na tela de uma residência particular do Flamengo, no Rio de Janeiro, a camada mais distante de vegetação, ao fundo, é basicamente esboçada; uma palmeira se destaca suavemente, a cor de um ipê-amarelo é pressentida; uma ou outra árvore se distingue pela altura.
No plano intermediário, as cores tornam-se mais fortes e os contornos são mais nítidos. No primeiro plano, Jardy dá protagonismo a uma árvore entrelaçada por lianas e a aves coloridas, que se destacam do fundo verde. Essa lógica de representação da floresta apresentada por Jardy pode ser analisada em correlação com a passagem de artistas viajantes pelo Brasil no século XIX, muitos dos quais associados a expedições científicas.
As “fisionomias” estão presentes na obra de Dominique Jardy, principalmente porque a artista busca a sensação do envolvimento com aquele universo vegetal.
A princípio, seu objeto principal eram as florestas atlânticas. Mais tarde, a artista realizou trabalhos que capturam outras fisionomias vegetais. Para uma obra localizada em Fortaleza, a artista apresenta as árvores de raízes aéreas de um manguezal, com aves pernaltas e as folhas inconfundíveis da carnaúba, propondo a fruição desse bioma que até pouco tempo não era devidamente valorizado em sua beleza e diversidade.

Fisionomias, paisagens e panoramas
Das tradições pictóricas estabelecidas no Brasil, é possível perceber que na obra de Dominique Jardy os três tipos de vistas realizados pelos artistas viajantes do século XIX estão representados: as fisionomias, as paisagens e os panoramas. A diferença mais notável em relação a essas tradições é a identificação que a autora faz da centralidade de vegetais e animais.
Por exemplo, na paisagem pintada no local para uma residência em Areal (Rio de Janeiro), céu, relevo e vegetação compõem a cena; no entanto, a pintora decidiu adicionar uma faixa decorativa repleta de aves sobre um fundo que simula azulejos. Abaixo, em uma faixa mais larga, animais de maior porte apresentam-se ao observador e agem de maneira lúdica, usando os elementos da pintura como se pudessem sair dela. Na paisagem principal, outros protagonistas também se destacam, como daturas, seriemas e uma embaúba.
Em relação aos panoramas, a relativa imersão que proporcionam provavelmente encanta a artista, que nunca esconde sua habilidade de lidar com representações complexas tanto pelas dimensões quanto pelas perspectivas desafiadoras. Um de seus panoramas, na residência Paulo Baruki, foi traçado a partir de um ponto hipotético acima da Mesa do Imperador, no Alto da Boa Vista, em um misto de precisão e imaginação.

Se a identidade brasileira está marcada pela tropicalidade, a manutenção das vegetações nativas ou sua restauração não estão asseguradas. Dominique Jardy pintou vários interiores de fazendas fluminenses, em um contexto em que o sistema escravista entra como elemento histórico a não ser esquecido. Seu trabalho para o Museu do Café da Fazenda São Luiz da Boa Sorte, para o qual realizou pinturas de plantações com trabalhadores escravizados, foi inspirado principalmente em Debret e Rugendas, além de fotografias posteriores.

Suas pinturas evocam e reforçam o desejo de estabelecer um elo entre o habitar e a paisagem tropical. Não se trata mais de sonhar com uma paisagem europeizada. Jardy traz para a cena as emas, os veados, os macacos e os jabutis, que em algum momento, foram os principais habitantes daquelas paisagens.
A intensa presença de animais contentes na obra da artista propõe um descentramento em relação ao Homo sapiens, funcionando como uma crítica ao antropocentrismo tradicional.
Lançamentos:
Rio de Janeiro
10 de março, Ateliê da artista. Das 16h às 22h. Conversa com a artista às 18h e autógrafos.
São Paulo
31 de março, Livraria da Travessa, Shopping Iguatemi, São Paulo (SP). Conversa com a artista e autógrafos.
Porto Alegre
24 de março, das 19h às 22h, com conversa com a artista;
20h30 autógrafos.
O livro:
“Mata Adentro – Dominique Jardy – Natureza e Arte“, texto de Lorelai Kury e fotografias de Jaime Acioli
Livro-arte com a obra da pintora francesa Dominique Jardy
216 páginas
Texto: Lorelai Kury
Fotografias: Jaime Acioli
Editora: Andrea Jakobsson Estúdio
Realização: Evoé Produções Artísticas
Número de páginas: 216
Formato: 23×30 cm, impressão 4 cores, capa dura, cerca de 100 imagens
Preço: R$ 200,00
ISBN: 97865-5086-028-8
Patrocínio: Prisma Capital / Origem Energia – ZMAX GROUP – Casa Farm
Projeto realizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Roaunet
Sobre a autora:
Lorelai Kury é Doutora em História pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris (1995), professora e pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz e do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro.
Professora associada do Departamento de História da UERJ. Pesquisadora do Cnpq. Tem desenvolvido a sua investigação, ensino e publicações nas áreas de: História das Viagens Científicas nos séculos XVIII e XIX; História da Cultura Científica no Brasil; História e Natureza; Circulação de Saberes.
Sobre Jaime Acioli:
Jaime Acioli nasceu no Rio de Janeiro em 1966. Em 1985, fez curso de fotografia no Museu de Arte Moderna (MAM-RJ). Formou-se em agronomia em 1992, pela Universidade Federal de Viçosa – MG. Começou a trabalhar com fotografia, em 1993, como assistente da Câmera Obscura. Em 1996, inaugura seu próprio estúdio, tendo se especializado em fotografia de obras de arte de instituições, coleções particulares e artistas, para uso em livros, catálogos e exame de autenticidade. Desde 2004, paralelo ao trabalho profissional, tem se dedicado ao seu trabalho autoral, produzindo projetos seriais de elementos na natureza e em estúdio, tendo em 2009 publicado o livro “Decurso”.
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Celina Mello Franco
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