Seja qual for a finalidade do projeto, o tecido de um estofado nunca é apenas um acabamento. Ele é parte da composição, participa da leitura visual do espaço e influencia diretamente como percebemos conforto, proporção e identidade. Quando bem escolhido, tem o poder de transformar a atmosfera de um ambiente; quando mal selecionado, pode comprometer a intenção do projeto.
No morar contemporâneo, em que buscamos lugares que expressem personalidade e acolhimento, o tecido ganhou ainda mais protagonismo. Ele conecta a função ao sensorial, traduz a experiência do toque e reforça o desenho das peças.

Esse equilíbrio entre forma, materialidade e uso é fundamental. É nesse ponto que o olhar técnico faz diferença.
“O tecido é uma extensão do desenho. Ele pode transformar completamente a percepção de um móvel: seja reforçando suas linhas, equilibrando volumes ou criando contrastes. No design de interiores acontece o mesmo: o material que reveste uma peça conversa diretamente com a arquitetura, com a luz e com o estilo de vida do usuário. Um tecido bem escolhido pode elevar um projeto, contudo, um tecido inadequado pode distorcê-lo”, explica o arquiteto e designer de mobiliário Felipe Zorzeto.
Quando o estofado guia o ambiente
Em salas e espaços sociais, o estofado costuma ser o ponto de partida para todas as outras escolhas. Um sofá, especialmente, define presença, cria eixo visual e estabelece o tom geral do décor.
Texturas mais encorpadas trazem aconchego, tramas naturais comunicam leveza. Já cores profundas criam sofisticação, enquanto bases claras ampliam a sensação de luminosidade.
Por isso, a seleção do tecido muitas vezes dita não apenas a estética do móvel, mas o diálogo entre materiais ao redor.
“Por exemplo, um sofá costuma ser a âncora visual de um ambiente. Por isso, o tecido que o reveste tem o poder de orientar todas as outras escolhas: madeira, metais, tapete, arte, iluminação. Texturas, cores e tramas imprimem caráter: podem deixar o espaço mais leve, mais quente, mais elegante ou mais descontraído. O tecido define a atmosfera tanto quanto o próprio desenho do móvel”, afirma o designer.
Essa relação direta com a composição faz com que a escolha do tecido seja mais estratégica do que intuitiva, ela parte do uso real da peça, do contexto e do estilo pretendido.

Escolha do tecido: por onde começar?
Para Zorzeto, antes de observar cor, textura ou tendências, o primeiro passo é entender quem usa o móvel, como usa e em que ambiente.
“O ponto de partida é sempre o uso real da peça: quem utiliza, com que frequência e em que contexto. Depois, deve-se analisar o clima da região, a proposta arquitetônica e o estilo desejado para o ambiente. É importante também entender a quantidade de elementos estofados para evitar excessos. E, por fim, mas não menos importante, observar o toque, pois o conforto sensorial é tão essencial quanto a estética”, orienta.
Casas com crianças e pets pedem tramas mais resistentes, por exemplo. Peças de uso eventual permitem materiais delicados. Essa percepção sensorial, muitas vezes subestimada, é crucial. O toque define vínculos: é ele que aproxima o usuário do móvel e cria familiaridade.
Por ser um elemento que participa diretamente da experiência física, o estofado reage a fatores ambientais e o clima. Materiais naturais costumam ser mais frescos; texturas densas aquecem; tramas abertas respiram mais; tecidos pesados criam aconchego visual e térmico.
“O clima interfere diretamente na experiência sensorial do tecido. Algumas tramas têm toque mais quente, outras mais fresco. Em cidades muito quentes, tecidos mais leves e naturais tendem a ser mais confortáveis; em regiões frias, texturas mais encorpadas criam acolhimento. O clima ajuda a orientar o equilíbrio entre estética e conforto”, explica Zorzeto.
Versatilidade: quando a neutralidade vira aliada
Em espaços que recebem diferentes estímulos, como cores, obras de arte e volumes variados, tecidos neutros acabam funcionando como base de equilíbrio. Eles permitem que o desenho do móvel apareça sem criar excesso de informação visual.
“Tecidos e couros em tons neutros ou inspirados em cores naturais tendem para dialogar com muitos estilos. Eles permitem que o desenho do móvel apareça sem competir com o ambiente. Em versatilidade, menos é mais: quando a base é neutra, o projeto respira e se adapta com facilidade”, pontua o designer.
Essa escolha, no entanto, não significa abandonar a personalidade. Ela apenas desloca o protagonismo da estampa para o conjunto do projeto.
Os erros mais comuns e como evitá-los
Vale destacar que, mesmo em projetos bem-intencionados, alguns equívocos se repetem. Segundo Felipe, um exemplo é escolher tecidos muito marcantes em superfícies grandes ou repetições excessivas de padrões, além de combinações pouco proporcionais ao tamanho do ambiente.
“Um dos equívocos mais frequentes é escolher tecidos muito marcantes para superfícies grandes, criando um peso visual difícil de harmonizar. Outro erro é repetir padrões ou cores em excesso, sem considerar a proporção do ambiente. Não existem regras rígidas, mas existe harmonia. Até um ambiente maximalista precisa de pontos de respiro”, alerta o designer.
No estúdio de Zorzeto, a escolha dos tecidos é parte essencial do processo criativo. Materiais que conversam com a estética contemporânea-brasileira reforçam o desenho e a intenção de cada peça. Toque, naturalidade e profundidade sempre serão os guias.
“Gosto muito das lonas de linho pela honestidade do material: são naturais, respiráveis, rústicas na medida certa e, ao mesmo tempo, elegantes. Também utilizo bastante camurças, que trazem textura, profundidade e aconchego. Esses materiais valorizam o desenho sem sobrecarregar a peça e reforçam a estética contemporânea-brasileira que busco no meu trabalho”, conclui Zorzeto.
Ao considerar função, clima, sensorialidade e composição, os estofados deixam de ser apenas revestimentos e passam a ser parte estruturante do design. Muitas vezes, são eles que determinam a atmosfera de um ambiente. É nessa interseção entre técnica e sensibilidade que o tecido certo faz toda a diferença.
Sobre Felipe Zorzeto
Felipe Zorzeto, 29, é designer, arquiteto e urbanista, um criativo inquieto que se dedica a expressar suas ideias por meio da arquitetura, design e arte. Embora seja natural de São Paulo, cresceu em Brasília e assimilou as curvas modernistas da capital como inspiração para cursar Arquitetura e Urbanismo.
Atuou em escritórios voltados para a construção civil, arquitetura e design de interiores, mas compreendeu durante o percurso que a sua paixão morava no design de mobiliário, o qual se dedica exclusivamente desde 2018, com a fundação do estúdio Felipe Zorzeto Design.
No estúdio, aplica uma abordagem que amadureceu por anos de experiências multidisciplinares, destacando-se sobretudo pela construção de estruturas efêmeras em projetos de cenografia no Brasil, onde o foco era a utilização de materiais renováveis e técnicas sustentáveis.
O estúdio possui fabricação própria em Brasília e combina processos refinados, matérias-primas de origem responsável e a valorização do trabalho artesanal para criar peças feitas para durar, comercializadas sob encomenda a partir do próprio canal de e-commerce e também por meio de revendas parceiras.
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Celina Mello Franco

