Embora o trabalho na oficina seja muitas vezes solitário, Pedro Leal não anda só. O espírito agregador é um dos traços mais notáveis de sua personalidade: ele vive cercado de amigos e está sempre disposto a colaborar.
“A era dos grandes egos no design não existe mais. Entre meus contemporâneos, a gente se ajuda muito”, afirma Pedro.
Na cena independente brasileira, Pedro está na turma dos designers-marceneiros – aqueles que fazem as peças com as próprias mãos. Mais do que isso, eles cuidam de tudo o que envolve a produção, da criação à montagem, do atendimento à entrega.

Antes de ser designer, Pedro foi publicitário. Trabalhou durante anos como redator em agências e passou uma temporada em Nova York, na Escola de Artes Visuais, até perceber que desejava continuar no universo criativo, mas preferia mudar de área.
De volta ao Brasil, refletindo sobre o que gostaria de fazer, ele se viu entre memórias de infância: lembrou do avô, bibliotecário em Santos, que se tornou projetista de casas graças ao conhecimento aprendido nos livros. Pensou também na mãe, que, sem formação na área, desenhou sozinha os móveis da família.
“Na época, curti demais acompanhar o trabalho dos marceneiros quando vieram montar os armários em casa e essa lembrança me despertou”, diz.

Pedro decidiu entrar para o curso de marcenaria Coisas de Madeira, em Niterói, onde mora, e claro que o professor, o designer Diego de Assis, logo se tornou um bom amigo. Depois, ingressou na primeira turma de Design de Mobiliário do IED-Rio, quando a sede da escola ainda era no Cassino da Urca.
De lá, foi trabalhar com o designer Rodrigo Calixto e, em 2017, saiu para montar a própria oficina. Comprou maquinário antigo, mas de qualidade, que está com ele até hoje, e fez as primeiras bancadas com compensado, pois faltava verba para pranchas de madeira maciça.
“Com a oficina pronta, aí não havia mais volta, eu tinha virado marceneiro”, lembra.

Hoje o local, também em Niterói, é compartilhado com os designers Marcos Husky, do estúdio Experimental, e Guilherme Sass, do Casa na Árvore. A artista visual Miranda Seliana, namorada de Pedro, faz as vezes de CEO e ajuda a manter tudo funcionando. Recentemente, Rodrigo Moreno, estudante de design de produto na UFF, foi contratado como assistente.
“Além de trabalhar e aprender comigo, ele pode usar o maquinário e o espaço para produzir as peças dele, o que considero um incentivo”, diz.

A mistura de madeiras diferentes na mesma peça e as formas arredondadas caracterizam os móveis e objetos criados pelo designer.
“Encontrar sua linguagem é uma das coisas mais preciosas para um criativo. Fico feliz de ter desenvolvido a minha”, avalia Pedro.
Ele usa apenas madeira maciça, de preferência proveniente de demolição, garimpada em casarões que vieram abaixo no centro do Rio de Janeiro – muitas vezes, o lote de vigas é dividido entre vários amigos marceneiros.

Atualmente, as criações de Pedro fazem sucesso no ambiente da arquiteta Paula Neder, um dos mais comentados da CASACOR São Paulo, em cartaz no Parque da Água Branca. O designer também acaba de retornar de Buenos Aires, onde apresentou o espelho Iara na feira de arte Mapa, ao lado de outros 17 estúdios brasileiros.

Antes disso, durante a Semana de Design de São Paulo, em março, realizou a segunda edição da mostra Impermanência, da qual é curador e organizador ao lado de Paulo Goldstein, 80e8 Design, Marcelo Stefanovicz, Miranda Seliana e Francio de Holanda. Sempre pronto a embarcar em um novo projeto (e a ganhar mais amigos pelo caminho), Pedro conseguiu reservar um tempo para si.
“A grande notícia é que finalmente, depois de cinco anos, vou sair de férias”, informa Pedro Leal.
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TAG: Pedro Leal, marcenaria, Paula Neder, CASACOR
