Acompanhamos diariamente, ao longo dos últimos meses, as notícias pela tv das manifestações que tomaram as ruas do mundo, o movimento “Black Lives Matter” (“Vidas Negras Importam”), contra o racismo estrutural.

Foi no telejornal “Jornal das Dez”, da Globo News, que a tv fez história ao reconhecer o erro e fazer pela primeira vez um jornal com todos os jornalistas negros, narrando não apenas as notícias do momento, como também as dificuldades vividas por cada um para chegar na posição profissional atual.

Foi a partir desse momento, que percebi que, na universidade pública que estudei não tinham  muitos negros nas turmas, que não tive professores negros na universidade, que também não dividi bancada de trabalho enquanto estagiário com outros estudantes de arquitetura negros e finalmente após doze anos de experiência profissional em vários escritórios, trabalhei apenas com três arquitetos negros.

Em busca de dados sobre representatividade no mercado de arquitetura, nos deparamos com a inexistência de informações a esse respeito no censo produzido pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU). Além da falta de dados, há também a lacuna do desconhecimento da produção dos arquitetos negros e suas raízes ancestrais; a arquitetura africana.

Em 1951, o arquiteto e urbanista Lúcio Costa lançou um texto intitulado “Depoimento de um arquiteto carioca” que diz:

“A máquina brasileira de morar, ao tempo da colônia e do império, dependia dessa mistura de coisas, de bicho e de gente, que era o escravo. Se os casarões remanescentes do tempo antigo parecem inabitáveis devido ao desconforto, é porque o negro está ausente. Era ele que fazia a casa funcionar: havia negro para tudo – desde negrinhos sempre à mão para recados, até negra velha, babá. O negro era esgoto; era água corrente no quarto, quente e fria; era interruptor de luz e botão de campainha; o negro tapava goteira e subia vidraça pesada; era lavador automático, abanava que nem ventilador”. 

Para ele, um grande pesquisador da arquitetura brasileira, o negro não participou com formas, elementos ou técnica construtivas, mas como meio de funcionamento da casa.

Com o “desaparecimento formal” desta modalidade de trabalho, a habitação teve que reformular seu programa de necessidades e suas áreas,que  resguardava ao negro não o papel de planejador e construtor, aplicando técnicas da sua cultura na terra nova, mas sim como um serviçal.

Para falar sobre o racismo estrutural no mercado de arquitetura e a falta de representatividade, conversei com a arquiteta Gabriella Maria Silva, formada na FAU-UFRJ com ampla experiência no mercado corporativo, a nos relatar suas vivências em um mercado ainda racista.

Representatividade Negra na Arquitetura /  Foto da arquiteta Gabriella Silva

Arquiteta Gabriella Maria Silva / Fotografia: Rogério dos Anjos

Qual foi o seu maior desafio enquanto estudante de arquitetura, moradora do subúrbio e mulher negra?

Muitos. Em uma época que internet ainda não era algo tão acessível 2004/5, lembrando que hoje em dia 1 em cada 4 pessoas não tem acesso a rede(IBGE), acesso às informações e referências, me manter financeiramente na instituição por ser em período integral e por uma série de questões de impossibilidade de comprovação de documentação, não ter acesso a uma das poucas bolsas de auxílio financeiro, compra dos materiais e livros, 2 horas de distância do campus.

Abismo cultural, financeiro e social. Como me manter informada e atualizada, sem aporte financeiro para viagens ou revistas? Havia uma matéria que propunha uma viagem guiada ao exterior, isso era muito fora de qualquer possibilidade financeira, a chance de fazer intercâmbio de graça era na Alemanha, mas pedia fluência na língua. O mais próximo que a faculdade se aproximava da minha realidade era na matéria de habitação social e mesmo assim de forma muito superficial.

Enquanto pessoa negra, a falta de representatividade no quadro de docentes e até nos colegas de classe, uma vez que as cotas não eram implantadas ainda. Apesar de ter contato com Egito na matéria de história da arte e arquitetura, nenhum contato com produções contemporâneas no continente africano, pois sabemos que a arquitetura nasceu no Egito continente Africano, mas não se resumiu a isso.

Uma vez formada, como foi pra você passar por uma seleção de vagas e em seguida trabalhar com criatividade em um universo sem diversidade racial?

Na época por falta de consciência racial, naturalizou muita coisa, o tempo foi passando e fui sentindo como aquela situação era violenta. Jamais me senti à vontade, por exemplo, em usar turbantes, já era um corpo diferente e encarado como tal de uma forma não aprazível.

Recebi muitos retornos de vagas que eu não me enquadrava no perfil, branco e corpo padrão. Muito da minha mobilidade empregatícia funcionou através de indicação, diga-se de passagem, de pessoas brancas. Tentava não deixar isso impactar minha produção.

A arquitetura trouxe uma certa desilusão pra você? Acompanho nas redes sociais o seu trabalho de fotografia, o Afroafeto, além também das suas aulas de pole dance. Há em ambas atividades um movimento de desconstrução de uma imagem imposta, de auto aceitação. Qual é o lugar dessas atividades atualmente na sua perspectiva de futuro? 

Sim, a arquitetura pode ser um ambiente muito tóxico para pessoas ditas no padrão, para pessoas negras posso dizer que é um pouco pior. Não abandonei a arquitetura, mas cada dia mais me afasto de situações em que era nítido que a minha presença era dispensável. Sigo autônoma.

Me sinto muito mais realizada e confortável com a fotografia hoje, Afroafeto é a forma como extravaso minhas dores e amores, onde espalho minhas crenças em uma sociedade melhor.

Pessoas negras racializadas se reconhecem e se aproximam infelizmente pelas dores, naturalmente aconteceu o mesmo no pole dance, hoje faço parte de um coletivo chamado afrontosas.pd onde pole dancers negras de todo país, desde o nível mais básico até as artistas premiadas em campeonatos, compartilham suas experiências e articulam mudanças no cenário que também é reflexo da sociedade em que vivemos.

Representatividade Negra na Arquitetura.

Projeto recentemente desenvolvido pela arquiteta Gabriella Maria Silva (Foto: Divulgação)

 

Representatividade Negra na Arquitetura

Projeto recentemente desenvolvido pela arquiteta Gabriella Maria Silva (Foto: Divulgação)

Onde estão os arquitetos e arquitetas negras? Quais projetos você conhece para dar visibilidade aos profissionais negros? Gostaria muito de saber e conhecer quem são suas referências negras na arquitetura e urbanismo em nível nacional e internacional.

Os arquitetos negros estão trabalhando, como sempre estiveram, desde Tebas a Aleijadinho. É sintomática essa pergunta, ela revela o apagamento de profissionais negros, é no mínimo intrigante que ao se perguntar onde estão estes profissionais só venham a memória nomes internacionais.

Percebendo isso, comecei a me inspirar em profissionais próximos, ao invés de aguardar que algum profissional negro finalmente fosse escolhido e devidamente reconhecido. Basicamente construir o que se quer ver, acompanho projetos e profissionais pelas redes, convido a conhecer também: Quati Arquitetura / Favelar / Projeto Arquitetas Negras / Arquitetura D’Preto / Fragoso Arq.Ceno.

Por fim, como sempre aprendo muito com você, uma análise final sobre o momento atual diante das manifestações antirracistas. Consegue vislumbrar mudanças?

Hoje passadas 3 semanas em que muitos se declararam antirracistas, observo a realidade de todos os dias, as pessoas na verdade não são antirracistas, elas querem não parecer racistas.

Ser antirracista demanda trabalho, demanda reconhecer erros, demanda ceder privilégios, demanda mexer em uma estrutura que está muito bem consolidada e isso custa. O que observo é uma maior movimentação em direção a unificação de profissionais negros, o que é ótimo.

Vindo de pessoas brancas, onde a maior parte da renda e poder de contratação está concentrada, não observo nada mais que o já muito citado “Pacto Narcisistico da Branquitude”, genialmente observou Maria Aparecida Bento em sua tese. 

        Fabiano Ravaglia      

 

Foto da capa: Yacob Chuck / AFP

 

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